A deputada estadual Ana Campagnolo avalia que a atitude do Governador Moisés, de afastamento do presidente Bolsonaro é traição não somente ao próprio presidente mas ao eleitorado. Na entrevista que concedeu ao site, ela cita outros nomes do PSL como o do presidente Fábio Schiochet, que acusa de “tirania absoluta” na condução do partido.
06/11/2019 20:15

A deputada estadual Ana Campagnolo avalia que a atitude do Governador Carlos Moisés, de certo afastamento do presidente Jair Bolsonaro é traição não somente ao próprio presidente mas ao eleitorado. Mais que isso, na entrevista que concedeu ao site, ela cita outros nomes do PSL como o do presidente Fábio Schiochet, que acusa de “tirania absoluta” na condução do partido.

Ana Campanganolo analisa o quadro atual principalmente em Santa Catarina e lembra que são sete os deputados que mantém o ideal “ bolsonarista” que impulsionou a eleição de 2018. O próximo passo é convencer Ricardo Alba e o Coronel Mocelin a retornarem às origens. Para a deputada, ambos por ora estão “ ali meio que numa chantagem com as possíveis candidaturas a prefeito”.

 Como a sra avalia o momento de divisão que passa o PSL?

Na verdade todos os espectros ideológicos têm essa disputa interna. Nós vimos isso acontecer também  quando a esquerda estava no poder. Os partidos se desmembrando, PCdoB, Psol, PSTU, PT, que são todos partidos de esquerda e também tem disputas entre si. De uma certa forma as disputas internas elas fortalecem a hegemonia. Inclusive Lenin, que foi um grande  estadista de esquerda dizia que aqueles que fossem movimentar a revolução de esquerda deveriam lutar juntos embora marchassem separados. É a mesma coisa que vai acontecer com a direita. Nós vamos ter os liberais, os conservadores disputando, vamos ter mais partidos de direita. O grande problema na política no Brasil  hoje é justamente o fato de que só temos um partido  que se declara de direita, que é o PSL, o que é absurdo você ter inúmeros partidos de esquerda e um único partido. Evidente que se só há um partido de direita ele vai acabar se dividindo e vai acabar havendo disputa para que surjam outros partidos. E um país com uma democracia saudável ele tem vários partidos de esquerda e vários e vários de direita.

O que se comenta no meio político, é que o PSL se dissolveu, está em processo de desmanche, então a sra não concorda com isso?

O PSL sim, porque o PSL de certa forma foi um partido alugado por um propósito ideológico , por um propósito conservador de um político, de uma personalidade. O Bolsonaro é o ícone e na verdade ele é o partido. Se ele for para outro partido... para qualquer partido que ele decidisse migrar na época da eleição, seria o PSL. O PSL é um partido de circunstância atrelado unicamente ao nome do presidente Bolsonaro e à onda conservadora da qual Bolsonaro é o grande representante. Esse espírito conservador estava de certa forma adormecido, amedrontado e despertou. Não vai voltar a dormir agora, não nas próximas décadas. O PSL  sim está sofrendo essa ruptura interna, é o caso de Santa Catarina, é o caso da Nacional Também, porque dentro do partido existem dois grupos: Os pragmáticos, com certa tendência ao centro com supostamente um discurso anti-extremista, o que é pura falácia, porque o Bolsonaro é um candidato de direita, não de extrema direita, mas de direita, ele é apenas direita.  E quem não está apoiando o Bolsonaro, talvez não seja tão de direita assim e por isso queria o afastamento, que eu acredito que é o caso por exemplo do Bivar, do Fábio Schiochet, nosso deputado federal, com certeza também o caso do Governador Moisés, que decepcionou absolutamente todos os conservadores. A gente vê algumas pessoas ainda que defendem o Governador Moisés, inclusive em partido de esquerda e essa defesa vem justamente daqueles que não esperavam que ele fosse eleito.

É traição essa atitude do Governador Moisés de certo afastamento do presidente Bolsonaro?

Sim, com certeza. O que o Governador fez em relação ao Bolsonaro e ao eleitor do Bolsonaro é traição em sombra de dúvida. Não foi só ele, também outros políticos de Santa Catarina. Acredito também que é o caso do próprio deputado Fábio Schiochet, que assumiu a liderança do partido porque dizia que a gestão anterior, do Lucas Esmeraldino não era democrática, e fez tirania absoluta, praticamente é um fantoche do Governador Moisés, que articula o partido com base em interesses do poder, e não em interesses do povo...

Que tipo de interesses ele teria... pegar o poder...

Quem está no poder quer permanecer no poder né? De inúmeras formas...

Candidatura à reeleição?

Talvez não, talvez levantando um nome para ser seu sucessor. Por exemplo o fato de um ex-vereador de Biguaçu, que é o caso do Douglas Borba ser agora o chefe da Casa Civil, aparecer tanto, tanto, tanto até de certa forma ofuscando o Governador...em inúmeras ocasiões que a gente vai para conversar com o governador quem responde é ele, se mete na frente, se considera como se fosse um vice-governador...  Não tenho como ler a mente do governador mas eu acho difícil que ele esteja pensando na própria reeleição. Porque quem trai seus eleitores dessa forma absurda e escrachada não é possível que a pessoa tenha essa perspectiva mas quem sabe um sucessor e para você construir isso, esses políticos mais pragmáticos tem a noção de construir base que na verdade é colocar prefeitos que depois vão trabalhar para esse governador na próxima campanha.

 Como a sra vê a organização do PSL hoje nessa situação que ele se encontra? Qual o futuro desse partido então?

Em primeiro lugar, falando somente em Santa Catarina. Nós temos um partido aparentemente dividido porque se a gente for avaliar, o partido é Bolsonaro. Os deputados em geral são. Só aquela carta que eu escrevi e coletei assinaturas, nós temos sete deputados. Somos em dez. Os dois que não assinaram, são os dois pré-candidatos a prefeito que cogitam uma prefeitura então tem relação total e completa o fato de o governador estar ali meio que numa chantagem com as possíveis prefeituras, segurando pela coleira os dois deputados: Alba e Mocelin. Mas se não fosse essa queda de braço com a negociata de uma pretensa prefeitura provavelmente  Alba e Mocelin estariam com Bolsonaro, que é o perfil mais natural deles. Então na verdade os nossos deputados no geral são Bolsonaro. Com problema de uma ou outra eventual traição, que é o caso escrachado do deputado Fábio Schiochet, líder do partido, que inclusive assinou a lista em favor do delegado Valdir. Mas nesse caso você vê, é uma minoria. O partido em Santa Catarina seria um bom partido. Se o Bolsonaro permanecesse no PSL, quem sabe nós conseguíssemos articular com a nossa força, nós somos maioria e com a nossa base, que é bolsonarista, para retornar esse partido para as nossas mãos, como já começamos algumas movimentações aqui, tirando o Ricado Alba da liderança e colocando no lugar dele o Sargento Lima e tirando o Mocelin da CCJ e me colocando no lugar dele justamente para desmontar o que a mídia já chama de “ Bunquer do Moisés”.

Qual seria o próximo passo?

Nossa expectativa seria de convencer esses últimos dois deputados desgarrados ali, interessados em prefeitura, que eles se voltem novamente aos princípios que os elegeram deputados estaduais, se necessário inclusive abrindo mão das prefeituras, mas não de seu eleitorado, da unidade partidária. Nós somos em sete. É engraçado que a gente vê entrevistas desses deputados que são contrários ao Bolsonaro pedindo unidade mas nós somos em sete deputados. Se eles querem unidade, eles precisam ceder e vir para o nosso lado. Nós somos mais fortes, Santa Catarina é um estado conservador. 

 Com a sua ida para a CCJ, a impressão é que o Governador Moisés está perdendo força na Assembleia. Isso de certa forma não criaria algum problema até para a governabilidade?

Infelizmente, se as queixas em relação ao Governador continuarem, ele vai ter uma grande indisposição da Assembleia. Isso já é característico do Governo dele. Ele não dialoga. Ele só recebe aqueles ... e isso aqui é sintomático e é gravíssimo. Inúmeras vezes, quando ele se pronuncia sobre o poder, o Estado e o Governo, ele usa a expressão “escolha pessoal”, “postura pessoal”... ninguém quer saber de postura pessoal. Ninguém votou no Moisés para ele fazer a vontade pessoal dele. As pessoas votaram no Moisés ligadas ao ideal conservador do Bolsonaro, também tem as reponsabilidades com o partido, com o eleitorado... e essa justificativa que ele usa inúmeras vezes, inclusive no caso do agrotóxico, que foi o mais claro, é uma posição totalmente autoritária, que cada vez mais inviabiliza o diálogo com ele. A gente vê que as posturas dos deputados acabam alterando no transcurso do tempo. Hora elogiam e agradam o governador,  hora se pronunciam contra, dependendo de coisas que o governador vai dando ou não...

 Teoricamente ele começou o governo com seis deputados e agora tem dois...

Na base realmente é isso. O que seria a base dele seriam os seis estaduais, quatro estão contra ele. Mas não contra ele como pessoa, porque diferente dele, não estamos pessoalizando. Contra ele como ideia. O caso do agrotóxico foi claro. A votação aqui na Assembleia foi 35 a zero. E ainda assim nós temos que voltar e discutir esse assunto do agrotóxico em janeiro e ele sustenta ainda uma base ideológica por trás daquilo, que as vezes parece que ele é um representante do partido da Marina Silva e não do partido do Bolsonaro, o que é muito confuso.

Deputada a sra considera que o presidente Bolsonaro vai sair do PSL? Ele está sinalizando...

Provavelmente ele vai sair, aliás, é um anseio do povo conservador, do povo de direita, um partido conservador. O PSL tem essa sigla, Partido Social Liberal, bastante atrelado às ideias liberais, inclusive antes da chegada do Bolsonaro com algumas posturas que o próprio Bolsonaro não aceitaria. O PSL foi um partido emprestado. O que o povo quer e acredito que o Bolsonaro vai fazer, é criar um partido com ideias conservadoras de fato. E isso não é extrema direita e isso não é absurdo.

Seria um novo partido?

Não sei. Tem os problemas da legalidade, o prazo que está se esgotando para as prefeituras ... não sei se ele vai criar um novo partido, se ele vai fundir partidos pequenos mas é importante que ele seja o ícone central de referência desse partido que foi o prometido para ele na campanha quando ele entrou no PSL. Razão pela qual ele abandonou outras ideias e outras propostas e ficou com o PSL. Ele queria autonomia sobre o partido coisa que ele não está tendo e aí você viu claramente duas alas disputando. E na ala que ficou contra o presidente Bolsonaro estão os políticos mais pragmáticos, mais interessados nas supostas chamadas negociatas dos trâmites do poder. Podem ser bons ou ruins, corruptos ou não.

 

 

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